As formas de tratamento, “principais meios linguísticos para dirigir o discurso a interlocutores específicos” (Faria 2019: 72), constituem em português um elemento de notória complexidade que não se restringe apenas à tradução dessas formas para outras línguas, mas também abrange o seu ensino, tanto para aprendizes de português como língua estrangeira quanto para os próprios falantes nativos (Duarte 2010: 133). No português europeu, ao nos dirigirmos a um único interlocutor, ‘tu’ e ‘você’ encontram-se em distribuição complementar, dependendo do tipo de relação entre estes: informal/formal, simétrica/assimétrica, próxima/distante (Nascimento, Mendes, Duarte 2018:245), mas segundo as autoras já se verifica um alargamento do uso do você não só “entre as classes menos cultas” mas também entre “algumas pessoas das novas gerações” (p. 251). Aliás, esta parece ser uma tendência entre os jovens – eliminar as diferenças hierárquicas entre os interlocutores – como indicam Bruns e Kranick (2021) em seu estudo contrastivo sobre as formas de tratamento em inglês britânico, americano, indiano e alemão, o que poderia ser resultado da globalização e da democratização. No português brasileiro, os pronomes ‘tu’ e ‘você’ convivem em algumas regiões, “com o predomínio de uma ou outra forma”, tendo ‘você’, porém, um uso atestado em uma grande área central do Brasil (Nascimento, Mendes, Duarte 2018:245). O objetivo deste trabalho é identificar e analisar as escolhas tradutórias implementadas por aprendizes italófonos de português como língua estrangeira na tarefa de tradução para o italiano, uma língua que opõe os pronomes ‘tu’ e ‘Lei’, das formas de tratamento utilizadas no filme de animação brasileiro “Brichos, a floresta é nossa”. O corpus em análise é composto por 26 propostas de tradução realizadas por estudantes nos níveis intermediários B1-B2 do QCER que frequentam a disciplina Lingua e Traduzione Portoghese. Para a realização da tarefa, os estudantes receberam o link para assistirem ao filme, a transcrição das falas, e a instrução de traduzirem as mesmas de modo que resultassem o mais natural possível para o público infantil italiano. O estudo se concentra no levantamento das formas de tratamento de tipo zero, pronominal, nominal e verbal presentes no texto de partida (português brasileiro) e nas estratégias utilizadas para traduzi-las. Evidencia-se que na tradução para o italiano contemporâneo desaparece o tratamento familiar respeitoso com a combinação ‘o senhor’, dirigido por um dos personagens ao ‘pai’ (no italiano contemporâneo utiliza-se o ‘tu’ e não o ‘Lei’ em âmbito familiar); o par ‘olhe/olha’ muitas vezes é neutralizado na forma do imperativo de segunda pessoa do singular ‘guarda’; há uma menor variedade lexical na tradução de nomes coletivos como ‘pessoal, galera, rapaziada’ ou de nomes no plural em função vocativa como ‘garotos, meninos’, que na maioria das vezes são traduzidos por ‘ragazzi’. No que se refere aos nomes de parentesco, quando não marcavam este tipo de relação, ora foram eliminados, ‘tio Olavo’ > ‘Olavo’, ora foram traduzidos por um equivalente coloquial do linguajar juvenil: mano>fra, fratello; brother>bro.
A tradução das formas de tratamento em "Brichos, a floresta é nossa" de Paulo Munhoz por estudantes italófonos de PLE
Carla Valeria de Souza Faria
2024-01-01
Abstract
As formas de tratamento, “principais meios linguísticos para dirigir o discurso a interlocutores específicos” (Faria 2019: 72), constituem em português um elemento de notória complexidade que não se restringe apenas à tradução dessas formas para outras línguas, mas também abrange o seu ensino, tanto para aprendizes de português como língua estrangeira quanto para os próprios falantes nativos (Duarte 2010: 133). No português europeu, ao nos dirigirmos a um único interlocutor, ‘tu’ e ‘você’ encontram-se em distribuição complementar, dependendo do tipo de relação entre estes: informal/formal, simétrica/assimétrica, próxima/distante (Nascimento, Mendes, Duarte 2018:245), mas segundo as autoras já se verifica um alargamento do uso do você não só “entre as classes menos cultas” mas também entre “algumas pessoas das novas gerações” (p. 251). Aliás, esta parece ser uma tendência entre os jovens – eliminar as diferenças hierárquicas entre os interlocutores – como indicam Bruns e Kranick (2021) em seu estudo contrastivo sobre as formas de tratamento em inglês britânico, americano, indiano e alemão, o que poderia ser resultado da globalização e da democratização. No português brasileiro, os pronomes ‘tu’ e ‘você’ convivem em algumas regiões, “com o predomínio de uma ou outra forma”, tendo ‘você’, porém, um uso atestado em uma grande área central do Brasil (Nascimento, Mendes, Duarte 2018:245). O objetivo deste trabalho é identificar e analisar as escolhas tradutórias implementadas por aprendizes italófonos de português como língua estrangeira na tarefa de tradução para o italiano, uma língua que opõe os pronomes ‘tu’ e ‘Lei’, das formas de tratamento utilizadas no filme de animação brasileiro “Brichos, a floresta é nossa”. O corpus em análise é composto por 26 propostas de tradução realizadas por estudantes nos níveis intermediários B1-B2 do QCER que frequentam a disciplina Lingua e Traduzione Portoghese. Para a realização da tarefa, os estudantes receberam o link para assistirem ao filme, a transcrição das falas, e a instrução de traduzirem as mesmas de modo que resultassem o mais natural possível para o público infantil italiano. O estudo se concentra no levantamento das formas de tratamento de tipo zero, pronominal, nominal e verbal presentes no texto de partida (português brasileiro) e nas estratégias utilizadas para traduzi-las. Evidencia-se que na tradução para o italiano contemporâneo desaparece o tratamento familiar respeitoso com a combinação ‘o senhor’, dirigido por um dos personagens ao ‘pai’ (no italiano contemporâneo utiliza-se o ‘tu’ e não o ‘Lei’ em âmbito familiar); o par ‘olhe/olha’ muitas vezes é neutralizado na forma do imperativo de segunda pessoa do singular ‘guarda’; há uma menor variedade lexical na tradução de nomes coletivos como ‘pessoal, galera, rapaziada’ ou de nomes no plural em função vocativa como ‘garotos, meninos’, que na maioria das vezes são traduzidos por ‘ragazzi’. No que se refere aos nomes de parentesco, quando não marcavam este tipo de relação, ora foram eliminados, ‘tio Olavo’ > ‘Olavo’, ora foram traduzidos por um equivalente coloquial do linguajar juvenil: mano>fra, fratello; brother>bro.Pubblicazioni consigliate
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